segunda-feira, 12 de abril de 2021

O Silva - Reproduções e Releituras

Trabalho de reprodução ou releitura de obra do Silva. As obras mais escolhidas pelos alunos foram Melancia, Algodoal e Bois no Pasto.









 




























sexta-feira, 9 de abril de 2021

O Silva - HÚMUS, HOMO, HUMILDE por Romildo Sant'Anna

 





HÚMUS, HOMO, HUMILDE
ROMILDO SANT'ANNA

José Antônio da Silva nasceu em Sales Oliveira, 1909; morreu em São Paulo, 1996. Pela vida, mordia-lhe a dor do desapreço e da incompreensão. Foi pintor e escritor; considerado o maior naïf do Brasil. Seus feitos pessoais e como artista o revelaram antena de nossa cultura de raízes; é o rio-pretense mais famoso nas artes plásticas, no Brasil e no exterior. Criado na roça e filho de humildes meeiros, José Antônio chegou a Rio Preto bem jovem, a capinar em sítios e fazendas da região. Sua disposição para a arte o chamou para a cidade, em finais de 1930. Sem eira nem beira, foi alojado com a mulher e os seis filhos descalços, nos fundos do Centro Espírita Allan Kardec. Realizava o serviço que aparecia, de carroceiro a guarda-noites de hotéis. Já famoso em São Paulo na década de 1950, e por indicação do governador, lhe foi dado emprego na Prefeitura Municipal. Era o faxineiro da Biblioteca. Muito antes já havia criado uma pequena Galeria de Arte, em sua residência. Nem sabia o matuto da roça que estava criando o primeiro Museu de Arte em São José do Rio Preto.

Desde criança sentiu inclinação para o desenho. Rabiscava em superfícies improvisadas. Autodidata, corajoso, visionário e aventureiro, inventando os próprios meios, Silva barganhava pinturas por mantimentos, remédios e bugigangas; dava quadros em troca de receitas médicas. Semi-alfabetizado, e durante 10 anos, escreveu o Romance da Minha Vida, editado em 49 pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Publicou os versos de Sou Artista, Sou Poeta (81) e três outras narrativas romanceadas – Maria Clara (70, prefácio de Antônio Cândido), Alice (71, adaptada em 86 como a peça “Rosa de Cabriúna”, pelo Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, direção de Márcia Medina, sob a supervisão de Antunes Filho) e Fazenda da Boa Esperança (87).

Embora no decênio de 1940 fosse desconhecido em Rio Preto, merecendo apoio de uns poucos jornalistas e intelectuais, como Basileu Toledo França e Dinorath do Valle, Silva foi revelado em 1946, na exposição de inauguração da Casa de Cultura, pelos críticos Lourival Gomes Machado, João Cruz Costa e Paulo Mendes de Almeida. Imbuídos estética e ideologicamente pelo Modernismo de 22, aqueles intelectuais enxergaram no artista genuína expressão da cultura rural brasileira, mormente a caipira. José Antônio participou, em 1949, da Exposição de Pintura Paulista, no Ministério da Educação e Saúde da então capital federal. Expôs em 50 no MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 51 recebeu o Prêmio de Aquisição do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. No ano seguinte, foi selecionado para participar da XXVI Bienal de Veneza. Em 53 participou da II Bienal de São Paulo; em 54, foi premiado pela II Bienal Hispano-americana de Havana; em 55, foi admirado na Exposição Internacional de Lissone, Milão. Em 56, mencionado no “The Arts in Brazil”, de Pietro Maria Bardi, Milão; em 60 foi referido no “Who’s who in Latin América”, dicionário de personalidades notáveis editado por Wheeler Sammors de Chicago. Passaram-se muitos anos e conquistas. Em 87, além da exposição coletiva Brèsil Arts Populaires Contemporain organizada pelo Ministério da Cultura e a Maison des Cultures du Monde da França, fez parte da Sala Especial Imaginários Singulares da XIX Bienal de São Paulo.

Em 1966, Silva criou o Museu Municipal de Arte Contemporânea de Rio Preto. Ainda nesse ano, além de coletivas em Moscou e Paris, foi distinguido com “Sala Especial” na Bienal Internacional de Veneza. É citado em dicionários e enciclopédias nacionais e estrangeiras; referido e estudado em livros de história da arte. Há publicações sobre o artista no Brasil e no exterior, além de estudos universitários de alto nível. Acerca do artista foram realizados filme de cinema, reportagens em jornais e revistas, inúmeros programas de televisão e o CD-Rom ȁJosé Antônio da Silva”, produzido pela Associação dos Amigos da Pinacoteca e Prefeitura de São Paulo. Silva possui quadros em Galerias e Museus de várias partes do mundo. Na capital, faz parte do MASP, do MAM, do MAC, da Pinacoteca do Estado e do Museu de Arte Sacra.

Após a aposentadoria da Biblioteca Municipal, José estabeleceu domicílio e atelier em São Paulo. O Museu de Arte Contemporânea foi fechado e as obras do acervo, assim como objetos históricos coletados pelo artista, ficaram abandonados, sujeitos ao calor e à umidade, às traças, ao fungo... ao esquecimento. Anos mais tarde, essa fortuna cultural foi doada pelo artista a Rio Preto e, em 80, inaugurado o MAP – Museu de Arte Primitivista ‘José Antônio da Silva’. Em 99, com a interdição do prédio, as telas de Silva foram depositadas nos porões do Teatro Municipal, onde permaneceram até março de 2001.

Silva foi um Antônio; um José... tudo nome de gente simples, ordeira e cumpridora. Foi emblema político e gritante do sem-terra, do sem-teto, do sem-nada que venceu na vida. À moda dos artistas populares, e incorporando tardiamente um ardente romantismo, fez de sua existência, arte; de sua arte, vida. Era personagem de si mesmo, um rapsodo perdido em desejos. Materializou o mito do pertencimento à nação... ao caipirismo. Seu tino para a expressão crua da arte fez ecoar pelos quatro ventos as aspirações, devaneios, sentimentos e paixão que identificam a maioria esquecida e espezinhada do país. Seu primitivismo de cores desnorteantes – para os padrões chiques das “belas artes” – revigora arquétipos e símbolos elementares da existência coletiva. O artista parece a encarnação da voz do povo, pronunciada no dialeto esquecido pelas elites integradas. Seja em pintura, literatura ou no que lhe indicasse a prodigiosa inspiração, Silva se expressava – como poetizaria Manuel Bandeira em “Evocação do Recife” – ȁna língua errada do povo, na língua certa do povo, pois ele é que fala gostoso o português do Brasil”. José Antônio, ingênuo em muitos aspectos, foi sujeito sabido, despachado, instintivo, descomedido, espontâneo e previdente; foi singelamente culto – no sentido mais refinado que se dá a essa palavra.

Em 12 de março de 2001, quando o artista completaria 92 anos, o MAP voltou a funcionar. Entre abril e junho foram restauradas 11 de suas telas a óleo, com o apoio cultural do SESC – Rio Preto. Em março de 2002, inaugura-se no MAP – Museu de Arte Primitivista ‘José Antônio da Silva’ a exposição permanente Silva: Imagens e Meios, composta de 26 objetos fotográficos impregnados de óleo sobre tela, com forte influência da Pop Art norte-americana e outros movimentos experimentais de 1960 e 70. Materializa-se outra vez a utopia de Silva, acalentada desde moço, quando chegou em Rio Preto, de mala e cuia, desejos visionários, a tristeza encalacrada do caipira tradicional, e a semente quixotesca de melhores dias. Cores exuberantes de seus quadros refletem uma sesmaria rústica e remota, que se transformou no Brasil de hoje.

Romildo Sant'Anna, escritor, prêmio 'Casa das Américas' (Havana), é curador do Museu de Arte Primitivista 'José Antônio da Silva' - São José do Rio Preto, Brasil.




O Silva - algumas obras

 




"Leian com muita atenção esta aula do Silva que sou eu mesmo. nasci errado e estou certo. para ser um bom artista ou pintor tem que nascer sabendo. Eu não durmo com o olho de ninguém. tenho horror a velhice. não confio em ninguem. levanto cedo e deito cedo. amanhan é sempre outro dia. ja nasci analnafabeto e sou um enquelectual. a vida não é so vida tem algo mais. pratico jinastica e de manhan corro mais do que um cavallo. gosto muito do mar e nado muito. tomo banho de sol todos os dias. não bebo e nem fumo. eu mesmo sou o meu medico. quero viver e chegar aos 100 anos. tenho muita força de vontade. sempre ajii sozinho sem ajuda de ninguem. meu deuz é a natureza e o resto é embrulho. nois somos Encantado e o mundo é um encanto. toda mulher é Flor da espinho Carinho e amor. quem não ama, não vive. Eu como amo estou vivendo. pinto de manhan até as 11 horas. Repouzo 3 horas por dia. Frecuento a picina e adoro um rabo de saia. as mulheres são remedio para os homens. quem não ama não esta vivendo e sim vejetando. quem nunca amou na vida não morreu não é nada. não tenho comprecto de enferioridade. sou eu mesmo. me criei no rabo do boi no meio dos urubus. porisso é que todos os meus quadros tem urubus. so falo a verdade e o que sinto. não sou simpre e nem convencido. vivo e ajo a minha moda. isto que escrevi é pura Filozofia da vida e do mundo. Estamos no meio das grandezas e continuamos com os olhos vendados". (sic)
José Antônio da Silva, 4 de agosto de 1976
SANT'ANNA, Romildo. Silva: quadros e livros, um artista caipira. São Paulo: Unesp, 1993.

https://www.escritoriodearte.com/artista/jose-antonio-da-silva

"Estão percorrendo todo Europa
Para todos apreciar
Mostrando as verdes peroba
E as praias linda do mar

As toras em cima do carro
O carreiro alegre trabalhando
O pasto molhado de orvalho
O carro triste cantando.

Mostrei o canavial
Mostrei o engenho de cana
Mostrei o cafezal
Mostrei as morenas bacana.

Lá foi o cateretê
O caboclo alegre sapateando
Para o mundo todo ver
O maior primitivo pintando.

Eu pinto a lavoura
Também pinto as pastaria
Pinto a empregada e a patroa
Pinto a Joana e a Maria.

Pinto carroça e carreta
Pinto carro e carretão
Pinto o pedreiro na picareta
Pinto o colono no enxadão.

(...)

Eu sou primitivo
Já nasci pintor
Quando mais eu vivo
Mais pinto com amor".
José Antônio da Silva
SILVA, José Antônio da. Sou pintor, sou poeta. São Paulo: Kosmos, 1982. p. 111.

Cachoeira

Cafezal

Chegada de João Bernardino de Seixas Ribeiro

Corcovado

Fim da Humanidade

Primeira queimada

Queimada

Rapto da noiva

Tempestade de vento

Travessia do Araguaia



quarta-feira, 7 de abril de 2021

Biografia de José Antonio da Silva - O SILVA

 Silva, José Antônio da (1909 - 1996)        

 

Biografia

José Antônio da Silva (Sales de Oliveira SP 1909 - São Paulo SP 1996). Pintor, desenhista, escritor, escultor, repentista. Trabalhador rural, de pouca formação escolar, é autodidata. Em 1931, muda-se para São José do Rio Preto, São Paulo. Participa da exposição de inauguração da Casa de Cultura da cidade, em 1946, quando suas pinturas chamam atenção dos críticos Lourival Gomes Machado (1917-1967), Paulo Mendes de Almeida (1905-1986) e do filósofo João Cruz e Costa. Dois anos depois, realiza mostra individual na Galeria Domus, em São Paulo. Nessa ocasião Pietro Maria Bardi (1900-1999), diretor do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), adquire seus quadros e deposita parte deles no acervo do museu. O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP) edita seu primeiro livro, Romance de Minha Vida, em 1949. Na 1ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1951, recebe prêmio aquisição do Museum of Modern Art (MoMA) [Museu de Arte Moderna] de Nova York. Em 1966, Silva cria o Museu Municipal de Arte Contemporânea de São José do Rio Preto e grava dois LPs, ambos chamados Registro do Folclore Mais Autêntico do Brasil, com composições de sua autoria. No mesmo ano, ganha Sala Especial na 33ª Bienal de Veneza. Publica ainda os livros Maria Clara, 1970, com prefácio do crítico literário Antônio Candido (1918); Alice, 1972; Sou Pintor, Sou Poeta, 1982; e Fazenda da Boa Esperança, 1987. Transfere-se de São José do Rio Preto para São Paulo, em 1973. Em 1980, é fundado o Museu de Arte Primitivista José Antônio da Silva (MAP), em São José do Rio Preto, com obras do artista e peças do antigo Museu Municipal de Arte Contemporânea.


Auto-retrato

https://www.riopreto.sp.gov.br/museu-arte-primitivista/ 

Comentário Crítico, Enciclopédia Itau Cultural

Autodidata de formação, José Antônio da Silva exerce várias atividades, entre elas a de trabalhador rural, até o seu trabalho como artista ser descoberto em 1946, durante exposição na Casa de Cultura, em São José do Rio Preto, despertando o interesse de críticos de arte que participavam do evento. Suas primeiras pinturas possuem cores frias e escuras. A partir de 1948, realiza paisagens de caráter mais lírico, empregando uma gama cromática mais viva e variada. Expõe nas três primeiras edições da Bienal Internacional de São Paulo, e nessa época, sua obra revela a influência pela pincelada vibrante de Vicent van Gogh (1853-1890), em 1955, passa a realizar quadros baseado no pontilhismo, nos quais os pontos ou traços de cor proporcionam destaque a matéria, como em Espantalhos diante da Paisagem (1956).

Apresenta em suas telas espaços amplos, abertos e temas ligados a vida no campo, como o algodoal, os cafezal e o boi no pasto, que acabam tornando-se sua produção mais conhecida. Como nota o crítico P.M. Bardi, o artista revela grande espontaneidade na abstração dos detalhes em suas telas, onde, por exemplo, fileiras de pontos brancos indicam o algodoal. Destacam-se em sua obra o desenho expressivo, o senso da cor e o caráter de fantasia. Silva percorre uma grande variedade de temas: natureza-morta, pintura sacra, marinha, pintura histórica e de gênero. Algumas telas possuem um tom irônico. Nos quadros realizados a partir da década de 1970, o artista cria maior distinção entre a figura e o plano de fundo, empregando também grandes planos de cores.

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa2079/jose-antonio-da-silva